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CRÍTICA: "VALE TUDO" TERMINA COM AUTODESTRUIÇÃO DE UMA OBRA E INCOERÊNCIAS

Taís Araújo e Bella Campos em cena como Raquel e Maria de Fátima - Reprodução/ TV Globo.


Parece que a mediocridade tem sido recompensada. Depois da desastrosa "Mania de Você", João Emanuel Carneiro ganhou uma outra oportunidade, assim como Manuela Dias, que ao entregar um dos piores remakes de todos os tempos, já anunciou ter sua próxima novela engatilhada.

Foram muitas expectativas para "Vale Tudo", afinal não era uma obra qualquer. A questão de valores morais e honestidade, personagens marcantes e a presença de uma vilã que marcou época estavam para ser remontados. O motivo? Comemoração de aniversário de 60 anos da TV Globo, que poderia sido melhor caso a novela de 1988 tivesse sido reprisada.

O debate da honestidade no Brasil ainda era um tópico atual, assim como as injustiças da sociedade e da política. Aqui a sofredora Raquel (Tais Araújo), a heroína, foi apagada completamente depois de se decepcionar com os rumos de sua personagem, que numa reviravolta perde tudo o que tem, voltando a vender sanduíches na praia. A atriz externou sua tristeza na falta de oportunidade de representar na tela uma mulher preta de sucesso, que vende na vida é assim, inspirar quem assiste.

Maria de Fátima (Bella Campos) demorou muito a engrenar. Desde sua escalação que causou muitas controvérsias pela falta de sintonia com a personagem, até armações que pareciam sair de uma malvadinha da "Malhação".

Personagens que perderam a importância ou sumiram como se nada tivesse acontecido, como o filho de Heleninha, coroam a situação. Coisas inexplicáveis, entrechos absurdos como a exaustão de merchandisings de produtos que apareciam em todo tipo de cena sem a menor sutileza. Numa cena de Afonso (Humberto Carrão) com o câncer já descoberto, em conversa com Solange (Alice Wegman), ele sugere ajudar ela a lavar roupa com sabão de uma marca famosa que é muito prático e bom de usar. Na internet não faltaram piadas, chamando de "Vale Publi".

Outra obsessão foi a entrada e a saída de temas atuais do momento no Brasil, como a inserção dos bebês reborn. Aldeide vira mãe de um, trata como um filho real que é mostrado como uma boneca qualquer. Ainda, a criação de podcast pelos vilões. Nem merchandisings sociais foram levados a sério: Afonso é diagnosticado com câncer do nada, mesmo sendo um cara saudável, assim como Leonardo, que paralisado numa cadeira de rodas, não é levado a um especialista pela família quando é encontrado.

A mais significativa mudança foi a existência em vida de Leonardo Roitman, o filho de Odete que morria na versão original e que Heleninha se culpava por ter matado. Aqui, ele está vivendo completamente alheio a família, sendo cuidado por uma senhora. A revelação de estar vivo para os Roitman deixou muito a desejar e o personagem passou a ser explorado apenas como o doador de medula para Afonso. Inclusive chega a se casar com uma cuidadora, algo completamente inútil, assim como a morte da mesma, que fica por isso mesmo. No final das contas, serviu para revelar o talento de Guilherme Magon, que brilhou demais no papel.


Deborah Bloch como Odete Roitman - Reprodução/TV Globo.


Sejamos muito realistas, "Ainda Estou Aqui" foi o salvador de Fernanda Torres, que a ajudou a escapar dessa loucura, já que fora convidada inicialmente para viver Odete Roitman. Com os percalços, Deborah Bloch foi escolhida. Não necessariamente é possível falar mal da atriz no papel, mas sim no que ela virou. Muitas barbaridades ditas na original, foram suprimidas e as poucos foi se tornando uma espécie de ninfomaníaca, sendo apelidada de "Fodete Roitman" na internet. 

Desde os primórdios, um "quem matou?" tem o poder de chamar a atenção do telespectador, até mesmo de quem não acompanha a novela. Se na original, toda essa situação foi montada de forma coerente e emblemática, aqui tudo foi um "balde de água fria". Numa cena de 30 segundos que começa e termina do nada, Odete está de frente para o atirador e diz que ninguém tem coragem de atirar nela. Alguém atira e corta pra próxima cena. Vida que segue.

O capítulo final é uma coroação a toda mediocridade possíveis. Nada interessante, como resoluções de personagens secundários e desnecessários, parecendo mais um capítulo qualquer. O "quem matou Odete Roitman?" supostamente parou o Brasil, com bolões de assassinos e até eventos em bares e casas de show para assistir ao vivo o capítulo final. Até a Globo se apoiou nesse marketing descarado.

Nos últimos minutos para o fim, somos apresentados a um dos maiores absurdos de todos os tempos. NINGUÉM MATOU ODETE ROITMAN. Ela está viva! Mesmo que Marco Aurélio (Alexandre Nero) tenha atirado nela, uma sequência mostra que, apesar de baleada no peito, passado horas na perícia na cena do crime, ela acorda de repente dentro do carro que leva seu corpo. Como ela conseguiu abrir o saco e escapar? E tem mais: lá de dentro ainda liga para Freitas (Luis Lobianco), pedindo ajuda, sendo operada num galpão clandestino sem nenhum aparelhamento médico. Como que a bala que atravessou seu corpo e a parede permitiram todo esse malabarismo de ressuscitar? O tempo passa e seu final é fugir do país, de helicóptero, mesmo tendo passado toda a fortuna para César e a família. 

Patético acreditar que tudo isso tenha sido colocado no ar pela Globo, que alguém acreditou no potencial e na coerência disso. No fim das contas, o remake de "Vale Tudo" foi um desastre colossal. Na tentativa de atualizar e modernizar, foram perdendo a essência e entregaram uma história mais cheia de furos que o corpo baleado de Odete Roitman.


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